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  • Nuno Salema

Casa Tomada ou A Matriz do Medo

(8 de Dezembro 2021)


Em 1946 o escritor argentino Julio Cortázar escrevia o conto Casa Tomada onde relata a história de um irmão e de uma irmã que vivem na casa de família que ambos herdaram. Passam os seus dias a limpar as várias divisões da casa colonial, demasiado grande para duas pessoas que nunca casaram nem tiveram filhos. Nas horas vagas, ela entretém-se a fazer tricô e ele ocupa-se com a sua coleção de livros franceses. Certo dia, são surpreendidos por uns ruídos no interior da casa que lhes chegam das divisões mais distantes da sala onde habitualmente passam o serão. Assustados, agindo por impulso, trancam a porta do corredor que dá acesso às divisões de onde os sons parecem provir. Resignando-se à sua nova realidade, passam a habitar uma parte reduzida da casa. Nos dias seguintes não se atrevem a partilhar sobre o medo que sentiram e também não conversam sobre os motivos que os impediram de averiguar que sons desconhecidos eram afinal aqueles. Rapidamente se habituaram ao seu novo estilo de vida, gratos por poderem ainda usufruir do pouco espaço que lhes restava. No entanto, não muito tempo depois, os ruídos regressaram, agora do lado de cá da porta trancada. Num ápice, levados pela onda de medo que os envolveu, apressam-se a sair de sua própria casa, sem nunca sequer considerarem a possibilidade de confrontarem o desconhecido e investigar a origem do barulho que lhes invadia o lar. Num instante, estavam na rua, despojados da sua casa.


Nos últimos meses tenho-me recordado várias vezes deste conto do Cortazar. Uma metáfora perfeita para o maior abandono a que nos podemos sujeitar, o abandono de nós mesmos. Somos Corpo e o Corpo é a nossa Casa. E esta Casa é o reflexo da casa maior, o Cosmos. Os antigos conheciam bem os caminhos que ligavam estas três dimensões - Corpo - Casa - Cosmos. O Universo era, segundo eles, um gigantesco Corpo Celeste, organismo vivo e consciente e nós, humanos e o planeta que habitamos, seríamos parte integrante desse Ser Universal. Fractais entrelaçados numa teia de Consciência interminável que unifica toda a matéria, desde as partículas mais elementares até às galáxias espiralares que pontificam na vacuidade do espaço infinito.


O nosso Corpo é, de acordo com esta visão, a revelação de um processo evolutivo com milhares de milhões de anos e nele reside uma inteligência orgânica imensurável. Não se trata de uma inteligência cognitiva, linear e dedutiva. Uma inteligência de capacidade analítica, lógica e racional. Trata-se sim de um movimento interno e subtil, quase silencioso. Uma sabedoria visceral, que chamamos de intuição, caracterizada por uma manifestação imediata, espontânea, que emana. A inteligência que faz o nosso coração bater, que regula a digestão dos alimentos que ingerimos, que transforma em energia o oxigénio que inalamos e que combate os vírus que atacam o nosso organismo é a mesma inteligência que conduz a semente a manifestar a flor que nela existe em potência e a inteligência que transforma os fótons emitidos pelo Sol em energia quando estes tocam a superfície de uma folha. É a inteligência que faz a leoa proteger as suas crias e a inteligência que governa o ecossistema do nosso planeta como se de um único organismo se tratasse.


Somos Corpo, somos Casa, somos Cosmos. E, na nossa cultura, no nosso estádio de desenvolvimento enquanto espécie, com toda a tecnologia ao nosso dispor, com as viagens espaciais comerciais ao virar da esquina, com os smartphones no bolso e no pulso, esquecemo-nos das nossas raízes, suprimimos a nossa conexão com o mais íntimo e sábio em nós e afastámos-nos da nossa essência.


Dificilmente poderíamos expor aqui todos os elementos e fazer todas as ligações que social, política e historicamente contribuíram para este corte, este afastamento. O que me interessa aqui explorar é a constatação de como o medo e a sua inculcação no inconsciente colectivo continua a ser uma das principais causas desse abandono de nós mesmos. Estamos - cada vez mais - mergulhados numa das maiores crises que a humanidade já teve que enfrentar. E podemos ver como, mais uma vez, como em tantos outros momentos da História, o discurso que incita o medo funciona como um mecanismo de controle e manipulação.



O medo tem um enorme poder e em todas as gerações, em todas as civilizações e em todas as culturas podemos reconhecer o sucesso da sua utilização. Aconteceu por motivos políticos, por motivos sociais e por motivos religiosos. Aconteceu para impor ideologias, suprimir oponentes e para enraizar crenças e comportamentos.

Sabemos hoje, graças ao contributo das Neurociências, de que forma o medo afecta as funções superiores do nosso cérebro. Enquanto permanecemos num estado de alerta, sob a ameaça real ou ilusória de um “predador”, o nosso organismo desactiva as partes do nosso cérebro capazes de atribuir significado, criar lógica e processar informação. Em modo de sobrevivência sacrificamos todas as faculdades superiores e perdemos a capacidade de estar presentes a nós mesmos e de estar em conexão com outros.


O mesmo medo que tolda a nossa Razão, que suprime o nosso sistema imunitário e que se apodera do nosso sistema nervoso. Tornamos-nos reféns de um estado interno que, quando se instala, nos faz abandonar a nossa sabedoria interna, a nossa capacidade de estar em harmonia connosco próprios e com os demais. Deixamos de nos sentir parte integrante de um todo e pelo contrário, sentimos-nos separados, sentimos-nos isolados. Desde esse lugar, torna-se fácil - e até necessário - projectar o nosso poder, a nossa força, a nossa individualidade para uma figura (Estado, Religião, Individuo) que nos prometa salvar e restituir-nos a harmonia perdida. Do mesmo modo, pontifica nestes momentos o movimento de atribuição de culpas, identificando-se um inimigo, ostracizando quem é diferente. O sentimento de comunidade que tão enraizado está em nós, transita de um lugar de pertença para um estado de oposição.,“A minha tribo contra a tua, tu és uma ameaça, tu colocas em perigo a minha forma de vida, a segurança da minha tribo”. Tantas vezes assistimos a isto na História da Humanidade e agora repete-se a dicotomia, desta vez sobre a égide das ovelhas de um lado e dos negacionistas do outro.


Recordo-me, por altura do primeiro confinamento, os milhares de actos de altruísmo e solidariedade que surgiram. Vizinhos a disponibilizarem-se para ir às compras, profissionais de diferentes áreas a oferecerem os seus serviços gratuitamente, correntes de apoio aos mais necessitados, concertos à varanda e homenagens aos profissionais de saúde. É tão inspirador testemunhar como o nosso instinto num momento de perigo é o de procurar união. E tão desolador que é ver como, à medida que os meses foram avançando e que o medo e o pânico se foram instalando, esse tecido social foi-se rompendo, as ligações foram-se desvanecendo e fomos-nos sentindo cada vez mais perdidos, náufragos à deriva ou sobreviventes isolados em ilhas desertas.


Os últimos dois anos têm sido muito exigentes, demasiado exigentes. Todos nós, cada um à sua maneira, tem abdicado, sacrificado e lutado as suas próprias batalhas. Enfrentando os nossos medos e superando cada um dos desafios, estamos na nossa própria Jornada e todos queremos que este pesadelo termine.

Estamos perante importantes decisões. Decisões que nos implicam a nós directamente e que implicam as pessoas que amamos. Há dois anos atrás pouco sabíamos sobre este vírus mas, desde então, produzimos dezenas de milhares de estudos e de dados científicos que podem e devem informar as nossas decisões, que podem moldar a forma como nos relacionamos uns com os outros enquanto sociedade e que nos podem inspirar de forma profunda. Que podem determinar a maneira como encaramos o que se está a passar no mundo e como pretendemos estar em relação connosco próprios e com os outros.


Na minha opinião, temos que regressar ao básico. À necessidade básica de sermos comunidade, de sermos um independentemente das nossas divergências e das nossas escolhas. E, desse lugar de suporte e de inter-ajuda, reencontrar uma sensação de segurança interna onde possamos abrir os nossos sentidos e dirigir a atenção para dentro de nós de forma a escutarmos a sabedoria milenar que carregamos, a voz dos nossos pais, dos nossos avós e de todos os que antes de nós viveram e aprenderam com a Vida. Quando reconectarmos com essa voz saberemos o que fazer.

Um abraço.

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