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  • Nuno Salema

Reflexão Em Vésperas de Eleições no Meio de Um Confinamento

(22 Janeiro, 2021)


Alguns de vocês saberão que vivo em Berlim há uns anos e, quem já passeou por esta cidade, possivelmente ter-se-á cruzado com uma destas inscrições.

Projecto iniciado em 1996 pelo artista Gunter Demnig, nelas podemos ler “Aqui viveu”, seguido de um nome, data de nascimento e o campo de concentração onde essa pessoa foi executada.


As inscrições estão colocadas diante das casas onde estas pessoas viviam antes do regime Nazi iniciar o seu plano de limpeza racial, amplamente anunciado nos anos que antecederam a sua subida ao poder.



O que tanto me toca nestes memoriais é o apelo para recordarmos diariamente uma das maiores tragédias do nosso passado recente. Por mais que nos sintamos isolados e perdidos numa grande metrópole, escondendo o nosso olhar das pessoas que se cruzam no nosso caminho, por mais que andemos alheados do que está a acontecer na sociedade e exacerbados por questões pessoais, jamais poderemos esquecer o que aconteceu somente há 3 ou 4 gerações atrás.


Caminhando mergulhados no nosso próprio mundo, com os olhos pregados nas pedras da calçada, teremos no chão que pisamos estas inscrições para nos recordar que, no nosso cirandar, podemos facilmente nos iludir, convencendo-nos que estamos a andar para a frente quando, na realidade, caminhamos para trás. E, quando assim é, torna-se inevitável que, mais tarde ou mais cedo, regressemos a lugares que acreditávamos nunca mais visitar.

Não restam dúvidas que necessitamos encarar seriamente o aumento da expressão política de ideologias extremistas mas, com o arrastar da pandemia e da crise humanitária que esta traz consigo, vemos também o escalar da polarização na sociedade. Amigos que deixam de se falar, famílias que se antagonizam e comunidades que se fragmentam. E, parece-me a mim, essa realidade é tão ou mais preocupante.


Entre o discurso extremado da “marioneta, vítima de lavagem cerebral dos media e da narrativa das autoridades” de um lado da trincheira e da acusação de “burro, negacionista, conspiracionista e culpado por o vírus não desaparecer” do outro lado, existe todo um espectro composto por seres humanos cujas vidas estão pintadas de tons trágicos e onde as consequências da doença viral, da doença mental, do isolamento afectivo e do desespero financeiro, estão apenas a começar.


Para o bem e para o mal, estamos todos no mesmo barco mas sei também que, embora veja a minha vida pessoal, familiar e profissional afectadas por esta pandemia, estou a viver tudo isto de um lugar privilegiado. Para muitos outros, tudo isto não será menos do que uma travessia do deserto. Um pesadelo tornado realidade.


E quando assim é, o medo, a frustração, a raiva, a ansiedade e a dor acumuladas ao longo dos últimos meses dão origem à suposição de que uma perspectiva pessoal e subjectiva pode ser apresentada como dogma. A culpabilização do outro, a pretensa superioridade moral, intelectual ou ideológica e a recusa em nos colocarmos em sapatos alheios, são os pilares da própria ideologia extremista que a grande maioria de nós procura erradicar.

Isso aplica-se aos políticos que nos pretendem governar tal como se aplica a cada um de nós e à forma como decidimos nos relacionar com o nosso vizinho, com a nossa comunidade.


Que esta etapa da história da Humanidade possa estimular o melhor que há em nós enquanto indivíduos e enquanto colectivo. Que o distanciamento físico a que estamos sujeitos possa criar novas formas de proximidade social e afectiva, empatia, respeito pelo pensamento crítico e aceitação de perspectivas distintas e distantes da nossa. Que ideologias racistas, xenófobas e fascistas possam ser combatidas por essas mesmas qualidades para que as futuras gerações reconheçam a força da inclusão, o poder do livre-arbítrio e a importância da liberdade.


Aos que forem votar, façam-no em segurança.


Aos que quiserem saber mais sobre este memorial, sugiro a leitura deste artigo de onde retirei esta foto, https://theculturetrip.com/.../the-deeper-meaning-behind.../


Um abraço

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