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  • Nuno Salema

Patriarcado, Uma História Por Acabar

Há uns meses atrás fui convidado para participar num documentário sobre o Feminino e o Patriarcado.

O documentário estreou e podes encontrá-lo disponível na Filminportugal (plataforma online).

Já tive a oportunidade de o ver e está fantástico, com importantes testemunhos e projectos que pretendem fazer a diferença na nossa sociedade.


Deixo aqui a transcrição da entrevista completa com as questões que o Pedro Serra me colocou:


- O que é para ti a masculinidade?


A Masculinidade é a expressão de uma força primária, uma força arquetípica, constituinte do Universo. Ela expressa-se em nós, humanos, expressa-se no mundo animal e expressa-se no movimento natural da Vida.

Quando ancorada num estado saudável e livre, associamos a Masculinidade à força da criação, da manifestação, à qualidade de proteção, da intervenção no mundo e na sua transformação.

No entanto, acho que é arriscado tentarmos encontrar uma definição do que o Masculino e a Masculinidade significam porque assim que encontrássemos essa definição, teríamos perdido a capacidade de a experienciar, de a encarnar por completo. Sendo a Masculinidade um principio fundamental do Universo, ela precisa ser vivida e não de ser definida. A cristalização de um conceito tem o objectivo de confortar o nosso intelecto para acharmos que compreendemos algo, que sabemos o que algo é. Quando na realidade, nunca saberemos nada por completo. A ilusão de sabermos, retira-nos do fluxo da Vida, da manifestação permanente que a constitui e adormece a qualidade de Presença em nós que a Vida nos exige. A Masculinidade é uma procura interna e uma pesquisa interpessoal, feita no mundo por pessoas e entre pessoas. Para sermos Homens e sermos Mulheres, habitar o Masculino é parte fundamental da Vida mas mais do que dizê-lo, terá que ser cada um de nós a descobri-lo.


- Como foi construída a tua masculinidade ao longo da vida?

Como qualquer outra qualidade humana, a Masculinidade em mim e em todos nós é construída na relação.


Na relação com o Outro, que no princípio é a nossa Mãe ou qualquer outro familiar ou figura de referência que assuma o papel de Cuidador Primário, mais tarde o nosso Pai e à medida que o nosso círculo social vai expandindo, as figuras de referência (homens e mulheres) que têm um impacto na nossa vida, assim como a relação que estabelecemos com o mundo e com o ambiente que nos rodeia.


- Se tiveres que fazer uma reflexão, quais são as coisas mais ditas aos homens durante a infância?


Relativamente a essa questão, irei repetir os lugares-comuns de os rapazes não choram, que expressar tristeza, dor física e emocional é sinal de fraqueza, que para sermos alguém neste mundo temos que ser melhores que os demais, que é expectável que tenha determinados interesses como o desporto, os automóveis, e que tenha uma determinada fisicalidade baseada na força, na superação, na bravura.


- O que é que é esperado dos homens aos olhos da sociedade?

(qual a pressão que homens têm para cumprirem as regras normativas impostas socialmente?)



Por motivos históricos que remontam às sociedades arcaicas dos nossos antepassados, a civilização actual está assente numa hierarquia de dominância cujos valores são o Poder, a Dominação e a Competição. Desde as Revoluções Industriais que esses valores assumiram consequências ainda mais nefastas e contribuíram para uma sociedade capitalista, materialista, onde a felicidade é associada ao sucesso no que diz respeito às conquistas académicas, aos sucessos profissionais e à abundância financeira e material. Essa imagem de sucesso tem provocado um enorme impacto na nossa sociedade que, geração após geração, se vê presa a um percurso de vida que começa na escola e acaba na reforma, onde somos constantemente confrontados com a necessidade de darmos mais, de sermos melhores e de estarmos a falhar enquanto pessoa quando não atingimos determinados objectivos.

No caso dos homens, pelos condicionamentos que abordámos na questão anterior vivemos actualmente aquilo que se pode chamar uma crise silenciosa nos homens, onde a depressão, a ansiedade e o suicídio são suprimidos pelo consumo de álcool e outras substâncias. 3 em cada 4 suicídios são cometidos por homens e o suicídio é a principal causa de morte em homens com menos de 35 anos de idade.


- O que é masculinidade tóxica?


A Masculinidade Tóxica é um sintoma. Não é a doença mas antes um dos sintomas de uma doença que está profundamente enraizada na nossa sociedade. Assim como os níveis de depressão, o consumo de substâncias e os suicídios são também sintomas dessa mesma doença. É fundamental que olhemos para a Masculinidade Tóxica mas, na minha opinião, é igualmente importante que possamos ir mais fundo na nossa pesquisa interna e colectiva se pretendermos provocar uma mudança estrutural na sociedade. Em determinado momento da nossa evolução civilizacional, desconectámos-nos do valor sagrado da Vida e traímos a essência da relação que temos com o planeta e com os seres vivos que nele habitam. Quando estamos separados de nós mesmos, separados de uma parte essencial em nós isso significa que estamos a lidar com um Trauma. Isto poderá parecer estranho para alguns porque nos habituámos a pensar o Trauma em situações de guerra, em acidentes, em momentos de intensa ameaça que nos deixa uma marca psicológica. Mas o Trauma é muito mais amplo e impactante que apenas o Trauma de Choque. Existe o Trauma de Desenvolvimento que, de uma forma ou de outra afecta cada um de nós, e existe o Trauma Colectivo e o Trauma Transgeracional.

Por mais importante que seja contemplarmos e vivenciarmos a enorme beleza que existe no mundo e o enorme milagre que é a Vida, não podemos mais ignorar que cada ser, quando nasce, entra num mundo onde a violência, o ódio e o abuso são uma experiência comum. Não podemos ignorar que os valores e os ideais da sociedade moderna não estimulam a expressão criativa da criança, que proclamam a competição e incentivam à separação. Género, Raça, Religião, Estrato Social. Este trauma é carregado pelos nossos antepassados geração após geração e, agora, carregamo-lo nós enquanto nos preparamos para o passar para os nossos filhos que o irão carregar também se não interrompermos este ciclo. Este Trauma, esta dor, tem assolado homens e mulheres e conduziu-nos para uma crise ecológica sem precedentes, onde a nossa própria sobrevivência está em risco.


- A virilidade está associada ao conceito de masculinidade? Porquê?


Penso que essa pergunta requer uma resposta de uma enorme complexidade. Do que leio e pesquiso, vários antropólogos e historiadores associam o início do Patriarcado ao momento em que os nossos antepassados deixaram de ser nómadas e se estabelecem num determinado lugar. Nesse processo, nasce o conceito de propriedade, nasce o conceito de estrangeiro e nasce o conceito matrimónio e a importância da fidelidade de forma a assegurar que a propriedade é passada para descendentes legítimos. Começa nessa época o sentimento de posse, tanto da terra como da mulher e, desse sentimento, brotam as guerras entre os homens e a supressão das mulheres e de toda a sabedoria associada ao Feminino. O homem, provavelmente ameaçado pela força que reside nas mulheres, procura criar uma sociedade à imagem de si. É interessante notar que a ideia de um Deus, enquanto entidade omnipotente e separado do Ser Humano, nasce nas culturas arcaicas dominadas por homens. Os nossos antepassados homens, nas suas caçadas em busca de alimento experienciavam a vida como sendo uma dicotomia: matar o animal para poder alimentar a sua tribo ou falhar e correr o risco de morrer. Nas culturas matriarcais, a relação com o Divino não é expressa dessa forma. As mulheres tinham o conhecimento da terra, das plantas e dos ciclos da Natureza. Essa experiência permitia a essas culturas olhar o mundo de uma forma mais integrativa, onde a cooperação e o eterno devir constituem a base da vida. A morte não é o oposto da vida mas sim mais um estádio de uma existência em constante transformação e manifestação. E foi tudo isso que se perdeu quando o Patriarcado se começa apoderar das estruturas sociais.

A guerra está enraizada em nós, faz parte do nosso inconsciente colectivo, no entanto, eu acredito que a actual imagem de virilidade que tu fazes referência ao colocares esta questão, foi exponenciada ainda mais no séc. XX e séc. XXI quando se começaram a disputar as Grandes Guerras. Os interesses económicos, as ideologias políticas e a sede de poder destes líderes já nada diz ao comum dos humanos, então deixa de fazer sentido lutar por uma causa que não é a nossa. Não estou a lutar pela minha família, pela minha liberdade mas sim pelos interesses de uns poucos que em nada têm a ver comigo. Então, há a necessidade de criar uma imagem, através da propaganda, do que um homem dever ser e de qual o seu papel na sociedade, sobretudo numa sociedade cujos princípios possam estar ameaçados por um inimigo. Ao se criar esta imagem distorcida do que um homem deve ser, possibilita a sua exploração, em tempos de guerra e em tempos de paz, para servir os interesses de uma cúpula.


- Porque é que os homens falam pouco sobre as suas emoções e porque é que devemos mudar isso?


Se concluirmos que a Masculinidade Tóxica é o sintoma de um Trauma Colectivo e Transgeracional que se expressa no indivíduo, então torna-se essencial que se criem espaços seguros de partilha e de exploração individual e colectiva onde os homens possam olhar para os seus condicionamentos e para as suas feridas e encontrar um caminho de regresso ao seu coração. Não é apenas uma redescoberta do seu mundo emocional, é o confiar de que será aceite e compreendido na expressão da sua vulnerabilidade. É um caminho de reencontro consigo mesmo, de reencontro com os seus irmãos, com as suas irmãs, com as suas companheiras amorosas, com os seus filhos e as suas filhas, com o Planeta e com a Espiritualidade.


- Em que medida a masculinidade tóxica afeta a forma como os homens vivem a sua sexualidade?


A sexualidade tem uma dimensão sagrada e, na realidade, é um lugar de enorme vulnerabilidade tanto para um homem como para uma mulher. Como já expressei, quando os nossos antepassados se estabeleceram num determinado local, nasceu o conceito de propriedade, a mulher passa a ser objetificada e usada em prol dos interesses do Patriarcado. Este afastamento da sacralização do acto sexual assim como da posse do corpo feminino, distorceu ao longo dos séculos esse lugar de intimidade onde se celebra o prazer, onde se honra a comunhão entre dois seres e onde se expressa a semente da Vida. O sexo passa a ser mais um instrumento de manipulação e de supressão. Fruto desse movimento é a indústria pornográfica. Não se trata apenas da dimensão desta indústria e dos milhões que ela gera mas também o conteúdo que nos é oferecido. É a representação máxima da desconexão entre seres humanos, a expressão de uma brutalidade e de uma frieza emocional que afecta tanto mulheres como homens. Sobretudo as gerações mais jovens que, à falta de uma educação sexual e de uma pedagogia do amor, encontram na internet a representação da união sexual entre seres humanos. E isso cria um ciclo vicioso, onde o abuso sexual que ocorre há milénios dá origem à indústria pornográfica que, por sua vez, “ensina” aos jovens uma sexualidade abusiva e assim sucessivamente.


- É importante desconstruir a masculinidade na nossa sociedade?


É importante caminharmos no sentido de um Masculino Reconciliado. A guerra que vivemos entre homens e mulheres faz de ambos vítimas. O trabalho de cura e reparação não pode acontecer apenas a nível individual porque estamos em contra-relógio. É fundamental que se criem espaços terapêuticos onde as comunidades se possam encontrar e caminhar no sentido da reconciliação e da cura do Trauma Colectivo.

A reconciliação do Masculino assim como o empoderamento do Feminino representa a unificação dos opostos em nós mesmos e nas nossas relações. A humanidade caminha para o maior desafio que já enfrentou. A crise ecológica colocará a sobrevivência das gerações futuras em sério risco e compete a nós, agora, iniciar esse processo e reverter o destino.


- A teu ver, como precisamos educar as crianças para o amanhã?


A pedagogia deve honrar a Criança e não moldá-la para a vida adulta de acordo com os princípios e valores da sociedade patriarcal actual. Honrar a Criança significa convidar a expressar a sua criatividade, estimular a expressão única do ser que ela é, deve moldar-se às suas características, respeitar os seus interesses e confiar que, no seu processo de crescimento e amadurecimento, a sua curiosidade irá conduzi-la a adquirir as competências cognitivas que sabemos ser importantes. Mas nessa jornada de edificação do Eu, deverá dar-se primazia à inteligência emocional e ao fortalecimento dos laços humanos. Que nos possamos conhecer a nós mesmos dentro da diversidade humana, inseridos na complexidade do ecossistema do qual somos parte integrante e enraízados no nosso corpo físico cuja inteligência orgânica tem milhões de anos e à qual devemos aceder como fonte de sabedoria interna.

Nós adultos deveremos ser figuras presentes, contentores do seu material emocional e olhar para nós de forma a reconhecermos os nossos próprios condicionamentos de maneira a evitarmos repetir com eles o que foi repetido connosco. Deveremos ter a humildade de sermos professores e alunos deles porque podemos ensinar-lhes o que aprendemos mas elas, as crianças, podem recordar-nos o que esquecemos.

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