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  • Nuno Salema

O Trauma no Masculino e a Crise do Silêncio


Olhemos com atenção para o Trauma de Desenvolvimento pois, neste domínio, é seguro dizer que todos nós carregamos as nossas cicatrizes.


Experienciarmos rejeição, abandono e humilhação faz parte do nosso processo de crescimento. Nenhum de nós cresceu num ambiente perfeito onde todas as necessidades afectivas e sociais tenham sido satisfeitas. Alguns de nós terão tido quem os acolhesse nos momentos mais difíceis e, assim, fortaleceram a sua resiliência e desenvolveram estratégias que lhes permitiu lidar com a dor sentida.


Mas outros, não tiveram à sua disposição os mesmos recursos. Face a experiências recorrentes de rejeição, abandono e humilhação, não sentiram a protecção necessária e, estando isolados, não foi possível processar e integrar essas experiências. Pelo contrário, os mecanismos que tinham à disposição e que lhes permitiram sobreviver, foram o de silenciar a sua angústia, adormecer a sua dor e suprimir as suas necessidades.

Mesmo quando somos relativamente bem sucedidos na construcção do nosso edifício egóico, é possível que estejamos a desenvolver a nossa personalidade em “modo de sobrevivência”. Esse edifício estará, nesses casos, repleto de fendas e rachas. Os seus alicerces assentes em terreno lamacento, sendo real o risco de ruir.


Os mecanismos de defesa - que estão inicialmente ao nosso serviço e nos permitem sobreviver a essas experiências negativas - com o tempo entranham-se na nossa mente, (de)formam o nosso corpo e cristalizam-se na nossa personalidade. Deturpam a visão que temos do mundo e determinam a forma como nos relacionamos. A ansiedade, os estados depressivos, a agressividade e o isolamento são alguns dos muitos sintomas que nos alertam para esta realidade. E, na nossa sociedade, estes sintomas estão-se a agravar.

Como forma de adaptação e supressão da dor, servimo-nos das nossas máscaras. Agarramo-nos aos nossos papéis sociais e vamos avançando pela vida, na esperança que o nosso mundo interno se transforme e que a vida nos devolva a felicidade e o bem-estar há muito perdidos.


No que aos homens diz respeito, todos conhecemos as circunstâncias culturais que moldam e afectam negativamente o nosso desenvolvimento intra e interpessoal. Não pretendo com esta publicação repetir o que tem sido dito nos últimos dias. O que quero frisar é que, neste lugar, tocamos numa nova camada do Trauma.

O Trauma Colectivo e Transgeracional é a expressão silenciosa da ferida psíquica que está presente na nossa sociedade ocidental mas que, na sua grande maioria, permanece num estado latente. Formas de violência e de abuso que surgem mascaradas de cultura e que, por essa razão, permanecem intocadas e inquestionadas.

O Patriarcado não é parco no que toca ao Trauma. Nas suas múltiplas expressões de violência e abuso que ganham forma na nossa cultura, todos somos potenciais vítimas e potenciais opressores e aquilo que vemos manifestar-se é o cíclico dilacerar do tecido comunitário.


Há várias gerações que nós homens somos “nascidos e criados” numa sociedade que nos desumaniza, que nos afasta da nossa essência e nos impele a perseguirmos imagens de um ideal apodrecido. As consequências são óbvias e estão à vista de todos. A Masculinidade que actualmente se rotula como sendo tóxica não é mais do que a Masculinidade traumatizada e a toxicidade que ela emana é um sintoma desse trauma.

Esta dor tem-se perpetuado geração após geração e compete-nos a nós, neste momento e sem mais adiamentos, transformar as nossas dinâmicas internas individuais e, dessa forma, evoluir colectivamente. Devemos fazê-lo por nós mesmos, pelos que sofrem em silêncio e pelas pessoas que amamos. Em última instância, fazemo-lo por respeito à Vida.


Pintura de IVAN TURCIN

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